Pular para o conteúdo principal

Drácula e seus descendentes




 O meu livro de conforto é Drácula, de Bram Stoker. Pela foto acima dá pra ver quantas edições eu tenho, e parte da minha coleção de “bagulhos de Drácula”, como diz a minha filha.

Vampiros são um dos temas mais abordados em livros — do vilão ao símbolo sexual, passamos pelo antiherói melancólico e amargurado (muitas vezes brilhante, para desespero de Bram) até um vingador cheio de testosterona.

Recentemente, vi pela enésima vez Drácula Untold, o filme com o lindíssimo Luke Evans no protagonismo — um Vlad apaixonado pela esposa e pelo filho. No final, o poema de Jalaluddin Rumi, Look at Love, fecha maravilhosamente bem:


Why think separately of this life ant the next, when one is born from the last?


Coloquei a íntegra no final desse post para quem quiser ler (e, confesso, comprei um livro de poesias de Rumi depois que vi o filme pela primeira vez, há alguns anos).

Mas vamos voltar ao vampiro mais famoso da história: Drácula.

Antes de Bram, John Polidori criou lorde Ruthven (O Vampiro, 1819), o primeiro aristocrata, frio, sedutor e socialmente respeitável. Ele traz para a luz o predador, colocando-o em salões iluminados a observar calmamente suas vítimas.

Drácula chegou em 1897 e trouxe, através de cartas, diários, recortes de jornal e registros médicos), a sensação de realidade. As descrições de Jonathan Harker do castelo e seu entorno nos levam à imersão, a enxergar pelos olhos do narrador um cenário macabro, sombrio, maravilhosamente descrito. Na minha edição de estudo (Martin Claret, 2012, traduzido por Maria Luísa Lago Bittencourt), aparece assim:

Mas uma das maiores qualidades da obra de Bram Stoker é a descrição da ansiedade da Era Vitoriana: o medo do estrangeiro, a repressão sexual, a tensão ciência X superstição, o pânico moral diante do que é diferente. O conde é mais do que um vampiro — ele é a personificação daquilo que a sociedade britânica não queria admitir que desejava. Nessa ambiguidade, ele permanece.

No século XX, o cinema deu rosto a Drácula, embora muitas vezes adicionando erotismo ao sangue (desejo e catarse sexual no veneno das presas) e colocando o vampiro na seara do irresistível.

Nosferatu (1922) é baseado no livro de Bram (sem direitos para tal) e, por isso, Drácula se transformou em Conde Orlok — nada sensual. Ele não seduz, mas contamina a vítima. Luz e sombra são a linguagem que transforma o vampiro em animal, com movimentos rígidos e aparência cadavérica.

Em Dracula (1931), Bela Lugosi incorpora o vampiro sedutor, elegante, que fala com charme, que hipnotiza com o olhar. Em um estilo mais hollywoodiano, fala de um vampiro que conquista antes de matar.

Bela Lugosi

Mas foi Anne Rice quem realmente mudou tudo. Em Entrevista com o Vampiro (1976), Louis e Lestat são protagonistas, atormentados por culpa, desejo, crises de identidade, solidão. Rice nos fez enxergar pelos olhos do predador.

A título de opinião não-solicitada, gosto mais do filme de 1994 (com Brad Pitt e Tom Cruise nos papéis principais) do que da série de 2022 (com Jacob Anderson e Sam Reid).

Em 1991, L.J. Smith publicou o primeiro livro da longa série Diários do Vampiro, colocando o atormentado e gentil Stephan e o perigoso Damon lado-a-lado, confundindo o leitor com um plot final cheio de sacrifícios, mortes (e personagens que voltam à vida), universo paralelo e tudo o mais.

Na série de televisão, o lindíssimo (um uísque que vem envelhecendo com qualidade) Ian Somerhalder faz o papel de Damon.

Os vampiros se multiplicaram e diversificaram, invadindo o YA, a fantasia urbana, o dark romance, as histórias carregadas de sexualidade intensa.

Crepúsculo (Stephanie Meyer) colocou Edward numa escola e o mergulhou nos dramas e dilemas de um romance adolescente. No mesmo ano (2005), A Irmandade da Adaga Negra (J.R.Ward) apresentou uma coleção de vampiros guerreiros, membros de clã, sociedades secretas, códigos e palavras próprias. Ambos já foram registrados nas telas.

Em 2007, Richelle Mead trouxe Academia de Vampiros, um livro sobre uma academia de vampiros e uma luta entre vampiros bons e maus. Novamente, a escalação trouxe, para o papel de Dimitri Belikov, uma escolha acertada: o russo Danila Kozlovsky.

O vampiro contemporâneo pode ser tudo — soldado, amante, político, aristocrata —. pode ser metafórico e filosósico. Ele pode ser o que quiser — ou o que o autor quiser e, talvez por isso, nunca sai de moda. Ele é uma criatura que vive no limiar — entre vida e morte, desejo e perigo, humanidade e monstruosidade — e encarna tudo aquilo que a sociedade teme e deseja ao mesmo tempo.

Não é a toa que Drácula é o meu livro favorito. Bram Stoker sabia que o vampiro é o espelho que devolve não o que somos, mas o que evitamos admitir. E cada geração encontra nele uma nova forma de se olhar.


Look at Love

Mevlana Jelaluddin Rumi
Trad. Nader Khalili

look at love
how it tangles
with the one fallen in love

look at spirit
how it fuses with earth
giving it new life
why are you so busy
with this or that or good or bad
pay attention to how things blend

why talk about all
the known and the unknown
see how the unknown merges into the known

why think separately
of this life and the next
when one is born from the last

look at your heart and tongue
one feels but deaf and dumb
the other speaks in words and signs

look at water and fire
earth and wind
enemies and friends all at once

the wolf and the lamb
the lion and the deer
far away yet together

look at the unity of this
spring and winter
manifested in the equinox

you too must mingle my friends
since the earth and the sky
are mingled just for you and me

be like sugarcane
sweet yet silent
don’t get mixed up with bitter words

my beloved grows right out of my own heart
how much more union can there be

Postagens mais visitadas deste blog

A vida é uma só

   Quando comecei a carreira de escritora, há mais de dez anos, eu imaginei que a qualidade poderia suplantar a minha inabilidade para lidar com a exposição. Não consegue. Vivemos num mundo 24x7, de hiperexposição desmedida. Da própria nudez à nudez do outro, das banalizações aos exageros, dos padrões que ironicamente falam de liberdade às liberdades que ironicamente impõem padrões, as mídias trazem, para pessoas como eu, o choque da própria inadequação. Não me encaixo. Não sei fazer algumas coisas e, mais do que isso, não tenho saúde mental para outras tantas. Cada livro meu traz uma história de superação, nem sempre compreensíveis por aqueles que enxergam o mundo pela lente bêbada das telas. Pequenas superações do ser humano médio, eu diria. Minhas personagens, eles e elas, não lutam contra dragões — ou voam neles — nem tampouco são as protagonistas da salvação do mundo. Pelo contrário. Elas lutam para salvar a si mesmas no caos que as envolve, e se superam a cada dia. As ...

A ilusão de um primeiro amor

  Prólogo Sofia Maria Violeta de Albuquerque era a filha mais velha do duque de Albuquerque, a única gerada do ventre do grande amor da vida do homem , frase que ela tinha orgulho de repetir sempre que lhe perguntavam por que não era nada parecida com a madrasta. Seus irmãos eram bem mais novos, e frutos do casamento seguinte — um arranjo comercial deveras rentável para Pedro Américo de Albuquerque. Por isso, naquele dia, Sofia estava parada com as mãos na cintura no meio dos aposentos de Delfina de Albuquerque — a madrasta — olhando o conde de Valença pendurado numa escada vasculhando o armário de roupas. — Você enlouqueceu, pulga — ele resmungou, com a voz abafada. — E está me arrastando para a lama com essa carreira de crimes! — Ora, João, deixe de ser medroso e procure. Eu sei que tem algo aí. — Claro que tem! Poeira... e um mandado de prisão! Que inferno! Ela arregalou os olhos, bateu palmas e deu alguns pulinhos animados. — Tem mesmo? Eu sabia! Deixe-me ver! — N...

O amor de um laird - Amor nas Terras Altas 3 - CAPÍTULO 1

  Escócia, 1831   Pela janela da sala de desjejum da pequena casa, um raio de sol iluminava partículas de poeira. A Primavera era bem-vinda, porque trazia um delicioso calor e espantava a insistente chuva do inverno. Estava silencioso, muito silencioso — nada além do virar das páginas do jornal de seu marido, que lia religiosamente as notícias de três diferentes países conforme os periódicos lhe eram entregues. Impávido. Inexpressivo. Alice o observava todos os dias e era capaz de dizer exatamente quando a informação o desagradava — um leve trincar dos lábios, a pressão firme dos dedos no papel ou simplesmente a forma como ele abandonava a mesa sem terminar de comer. Há dez anos, eram casados. Há quase cinco, mal se enxergavam. O mordomo limpou a garganta. — Chegou uma carta, senhora. Alice desviou os olhos da xícara e sorriu fracamente para o idoso. Ela, as irmãs e a mãe eram correspondentes fiéis e haviam criado um fio que as fazia crer que estavam na mesma...