Prólogo
Sofia Maria Violeta de Albuquerque era a
filha mais velha do duque de Albuquerque, a única gerada do ventre do grande
amor da vida do homem, frase que ela tinha orgulho de repetir sempre que
lhe perguntavam por que não era nada parecida com a madrasta. Seus irmãos eram bem
mais novos, e frutos do casamento seguinte — um arranjo comercial deveras rentável
para Pedro Américo de Albuquerque.
Por isso, naquele dia, Sofia estava parada
com as mãos na cintura no meio dos aposentos de Delfina de Albuquerque — a
madrasta — olhando o conde de Valença pendurado numa escada vasculhando o
armário de roupas.
— Você enlouqueceu, pulga — ele resmungou,
com a voz abafada. — E está me arrastando para a lama com essa carreira de
crimes!
— Ora, João, deixe de ser medroso e
procure. Eu sei que tem algo aí.
— Claro que tem! Poeira... e um mandado de
prisão! Que inferno!
Ela arregalou os olhos, bateu palmas e deu
alguns pulinhos animados.
— Tem mesmo? Eu sabia! Deixe-me ver!
— No seu nome, sua tola. Claro que não tem
mandado nenhum aqui!
Sofia inclinou a cabeça para o lado, e João
Frederico revirou os olhos.
— É ironia... Figura de linguagem, coisas
assim. — Ele desceu da escada, batendo a poeira da camisa. — Nada ali também.
— Desde que você resolveu ser advogado,
está um chato. Eu preferia quando você era só um rapazote levado. — Ela cruzou
os braços e soltou os ombros, desanimada. — Não é possível que eu vá morrer sem
descobrir o que aconteceu.
— Achei que você tinha desistido disso... —
João passou por ela, espiou o corredor e chamou um jovem criado para que
retirasse a escada. — Faz mais de dez anos, Sofia.
— Doze anos, para ser exata. — Sofia cruzou
os braços e arqueou a sobrancelha quando ele se virou para ela novamente. — E eu
tenho certeza de que vou encontrar alguma coisa aqui. Você é o meu
melhor amigo e sabe melhor do que ninguém que a morte da mamãe foi muitíssimo
estranha...
Ele pegou a casaca que tinha deixado sobre
a cama e vestiu.
— Não sei de nada. Sua mãe faleceu dando à
luz. O que tem de estranho nisso?
Sofia suspirou e virou o rosto.
— Tudo.
João balançou a cabeça para os lados e
bufou.
— De qualquer maneira, não foi exatamente
assim que pensei em passar as férias, devo dizer. Quando você me convidou para visitá-la
aqui no campo, pensei em cavalgadas, comida e descanso; não em arriscar a minha
vida pendurado numa escada velha de madeira.
João franziu o cenho ao perceber que a
amiga prendia a risada. Quando Sofia afastou a mão do rosto, apertou os lábios
e disse:
— Já era para ter aprendido a dar nó na
gravata, conde de Valença...
Ele deu de ombros, nada sem jeito.
— Tenho um criado dedicado exatamente para
isso, pulga.
Ela riu. Com a intimidade, Sofia sequer
pestanejou antes de levar a mão ao pescoço de João e corrigir o desalinho daquele
que vinha sendo seu melhor amigo desde os oito anos de idade — e sócio de seu
pai na empresa de comércio marítimo.
— Eu tenho uma intuição forte de que as
provas que eu procuro estão aqui. Por que outro motivo a bruxa evitaria tanto
vir para cá? Há anos não pisamos aqui na Quinta. Só pode estar
aqui.
— Sofia, você nem sabe o que procura.
Percebe que isso é coisa de gente desatinada?
Ela não respondeu — seus pensamentos já
tinham partido para outro plano. João olhou para a filha do duque e soltou o ar
pela boca.
— Vamos, pulga. Eu tenho poucos dias para
ficar aqui antes de voltar à faculdade e não quero perder mais tempo trancado
no quarto empoeirado da dona Delfina.
Ele saiu e segurou a porta para que Sofia
passasse. Ela ainda olhou por sobre o ombro antes de se dar por vencida — naquela
batalha específica, e não na sua odisseia.
Então, num desses atos do destino, seus pés
se enrolaram um no outro. Sofia tropeçou em uma tábua solta, soltou um palavrão
nada adequado para uma dama e caiu no chão de forma absolutamente deselegante —
saias, cabelos, tecidos, anáguas e tudo o mais que uma jovem de quase vinte e
um anos, filha de um duque austero deveria usar.
João sequer teve tempo de ajudar, mas a
risada nasceu antes que ele controlasse. Nada cavalheiresca e espontânea —
talvez, exatamente por isso, ainda mais estrondosa.
— Pare de rir e me ajude, seu desalmado!
Ele a ajudou a se sentar, mas, antes que
conseguisse segurar os cotovelos dela para puxá-la, Sofia franziu o cenho e
pendeu a cabeça. João sentiu o calafrio. Ele conhecia muito bem aquela
expressão — era o preâmbulo de problemas, era o anúncio de algo muito
irresponsável, era o rascunho de uma confusão.
— Sofia... — a voz dele saiu como um aviso.
E ela, é claro, ignorou. A filha do duque se
apoiou nas mãos e nos joelhos, e engatinhou até a madeira solta — única razão
de sua queda, ela diria, já que não se considerava nada desajeitada —,
ignorando solenemente os resmungos do conde.
Sem pensar no que poderia encontrar, ela
enfiou a mão no buraco.
— Sofia, pelo amor de Deus, tire a mão daí!
— João! — ela deu um grito animado antes de
arregalar os olhos para ele. — Eu encontrei alguma coisa!
Ela puxou uma caixa de marchetaria. O conde
franziu o cenho e abaixou-se ao lado dela, sentindo um espírito jovial e aventureiro
varrer seu peito — uma lembrança doce da infância na quinta de sua própria
família, quando seus pais ainda eram vivos.
A caixa era pequena, e parecia pesada
demais para o tamanho. Na tampa, quase apagado pelo tempo, o monograma da mãe
de Sofia: M. V. A.
— A gente precisa sair da frente do quarto
da bruxa — Sofia comentou, ficando de pé sem ajuda alguma e oferecendo a mão
para ele. — Vamos para o meu quarto!
Os olhos dela brilhavam com a descoberta —
castanhos, enormes, vívidos. Seus lábios grossos abriam-se em um sorriso.
Alguns fios de cabelo haviam se soltado da trança, e ela ainda guardava o rubor
da queda. João se pegou olhando tempo demais, percebendo coisas demais,
diferenças demais para a menina que o seguiu por quase seis meses pelos
jardins.
— Vamos, João! Ande logo!
Ele limpou a garganta.
— Eu não... — Balançou a cabeça, espantando
a imagem que se formou na sua cabeça. — Não posso ir para o seu quarto...
Sofia apertou os olhos para ele e pendeu a
cabeça, analisando-o.
— Deixe de bobagem! Quantas vezes já foi ao
meu quarto?
João apoiou as mãos no chão e ficou de pé, incomodado
demais com a ingenuidade dela.
— Não somos mais crianças, sua pulga tola!
Já pensou no problema de sermos encontrados sozinhos no seu quarto?
Ela ignorou e segurou a mão dele, pronta
para puxá-lo na direção que sugerira. João puxou a mão de volta. É claro que
não era a primeira vez que ele a via, nem tampouco que reparava em detalhes de Sofia.
Oras, quando ele voltou da escola, antes de partir para a faculdade, ela tinha
seios!
Ainda assim, ela era Sofia... e só tinha
quinze anos.
O cheiro da amiga entrou na bruma de seus
pensamentos — aqueles que ele havia empurrado para o lado quando ela afirmou
categoricamente que jamais se casaria, dois anos antes, na sua temporada de
apresentação —, mas foi a voz de preocupação dela que o trouxe de volta à
realidade.
— João?! Você parece pálido... Por que está
me olhando assim?
— Onde eles estão? — a madrasta perguntou,
já subindo a escada.
Os olhos de Sofia se arregalaram.
— É a bruxa! O que a gente faz agora? —
sussurrou, agarrando a blusa dele em desespero.
Uma ideia se formou e João não pensou:
apenas agiu. Ele arrancou a caixa da mão dela, enfiou no bolso interno da
casaca e fez a única coisa em que lhe ocorreu enquanto olhava para Sofia.
Ele a beijou.
***
