Pular para o conteúdo principal

A vida é uma só

  


Quando comecei a carreira de escritora, há mais de dez anos, eu imaginei que a qualidade poderia suplantar a minha inabilidade para lidar com a exposição.
Não consegue.
Vivemos num mundo 24x7, de hiperexposição desmedida. Da própria nudez à nudez do outro, das banalizações aos exageros, dos padrões que ironicamente falam de liberdade às liberdades que ironicamente impõem padrões, as mídias trazem, para pessoas como eu, o choque da própria inadequação.
Não me encaixo. Não sei fazer algumas coisas e, mais do que isso, não tenho saúde mental para outras tantas.
Cada livro meu traz uma história de superação, nem sempre compreensíveis por aqueles que enxergam o mundo pela lente bêbada das telas. Pequenas superações do ser humano médio, eu diria.
Minhas personagens, eles e elas, não lutam contra dragões — ou voam neles — nem tampouco são as protagonistas da salvação do mundo. Pelo contrário. Elas lutam para salvar a si mesmas no caos que as envolve, e se superam a cada dia. As pequenas lutas do dia a dia — estar cheia de sono e ainda levantar da cama quando ouve o despertador, por exemplo — são o combustível que alimenta cada uma delas.
Na terça que vem (27/10), vou lançar um livro — O amor de um laird — sobre uma mulher presa a um casamento falido na Escócia em 1831.
Ela não poderia se divorciar. Era mulher e, como tal, engasgava com as inúmeras limitações de uma sociedade machista— ainda vivemos isso, mas é outro assunto. Escrevi três finais diferentes, e consultei diferentes leitoras e escritoras que conheço. Apenas uma delas decidiu que a mocinha deveria salvar a si mesma. O que isso nos diz sobre o mercado?
O final que eu escolhi não é esse, nem tampouco é o clichê. A Dri de alguns meses atrás teria seguido a escolha mais óbvia, mas a Dri do presente lembrou da Dri de quinze anos atrás — aquela que decidiu ser escritora porque é apaixonada por subtexto — e colocou o inusitado.
Escolhi o final que diz que a dúvida nem sempre é empecilho. Que diz que não precisamos saber de tudo para decidir o caminho a seguir. Escolhi o final que fez a felicidade dela não depender de uma grande atitude romântica do outro protagonista. O final que não vilanizou pessoas que também têm suas questões a resolver.
Nossos antagonistas são, frequentemente, os nossos próprios medos.
O nosso caminho se fecha, muitas vezes, porque fechamos os olhos.
O futuro é incerto, queridas. Não façam a sua felicidade depender de algo que você jamais vai conseguir fazer — como eu e a superexposição que falei no início do texto.
Não precisamos mudar quem somos para caber no quadradinho que nos impõem. Ao fim e ao cabo, é o espelho quem nos encara todo dia.

Postagens mais visitadas deste blog

A ilusão de um primeiro amor

  Prólogo Sofia Maria Violeta de Albuquerque era a filha mais velha do duque de Albuquerque, a única gerada do ventre do grande amor da vida do homem , frase que ela tinha orgulho de repetir sempre que lhe perguntavam por que não era nada parecida com a madrasta. Seus irmãos eram bem mais novos, e frutos do casamento seguinte — um arranjo comercial deveras rentável para Pedro Américo de Albuquerque. Por isso, naquele dia, Sofia estava parada com as mãos na cintura no meio dos aposentos de Delfina de Albuquerque — a madrasta — olhando o conde de Valença pendurado numa escada vasculhando o armário de roupas. — Você enlouqueceu, pulga — ele resmungou, com a voz abafada. — E está me arrastando para a lama com essa carreira de crimes! — Ora, João, deixe de ser medroso e procure. Eu sei que tem algo aí. — Claro que tem! Poeira... e um mandado de prisão! Que inferno! Ela arregalou os olhos, bateu palmas e deu alguns pulinhos animados. — Tem mesmo? Eu sabia! Deixe-me ver! — N...

O amor de um laird - Amor nas Terras Altas 3 - CAPÍTULO 1

  Escócia, 1831   Pela janela da sala de desjejum da pequena casa, um raio de sol iluminava partículas de poeira. A Primavera era bem-vinda, porque trazia um delicioso calor e espantava a insistente chuva do inverno. Estava silencioso, muito silencioso — nada além do virar das páginas do jornal de seu marido, que lia religiosamente as notícias de três diferentes países conforme os periódicos lhe eram entregues. Impávido. Inexpressivo. Alice o observava todos os dias e era capaz de dizer exatamente quando a informação o desagradava — um leve trincar dos lábios, a pressão firme dos dedos no papel ou simplesmente a forma como ele abandonava a mesa sem terminar de comer. Há dez anos, eram casados. Há quase cinco, mal se enxergavam. O mordomo limpou a garganta. — Chegou uma carta, senhora. Alice desviou os olhos da xícara e sorriu fracamente para o idoso. Ela, as irmãs e a mãe eram correspondentes fiéis e haviam criado um fio que as fazia crer que estavam na mesma...