Pular para o conteúdo principal

O amor de um laird - Amor nas Terras Altas 3 - CAPÍTULO 1

 

Escócia, 1831

 

Pela janela da sala de desjejum da pequena casa, um raio de sol iluminava partículas de poeira. A Primavera era bem-vinda, porque trazia um delicioso calor e espantava a insistente chuva do inverno.

Estava silencioso, muito silencioso — nada além do virar das páginas do jornal de seu marido, que lia religiosamente as notícias de três diferentes países conforme os periódicos lhe eram entregues.

Impávido.

Inexpressivo.

Alice o observava todos os dias e era capaz de dizer exatamente quando a informação o desagradava — um leve trincar dos lábios, a pressão firme dos dedos no papel ou simplesmente a forma como ele abandonava a mesa sem terminar de comer. Há dez anos, eram casados. Há quase cinco, mal se enxergavam.

O mordomo limpou a garganta.

— Chegou uma carta, senhora.

Alice desviou os olhos da xícara e sorriu fracamente para o idoso. Ela, as irmãs e a mãe eram correspondentes fiéis e haviam criado um fio que as fazia crer que estavam na mesma sala. As cartas sempre começavam na matriarca, em Londres, seguiam as três filhas mais velhas até chegar a Alice, nas redondezas de Blair — na Escócia, bem longe de todo mundo que ela conhecia. Quando uma delas queria escrever, enviava primeiro para a mãe — e o fio se desenrolava a partir dali. Como nota-se, as notícias chegavam com muito atraso às mãos de Alice; e ela mesma não tinha novidades há... nem lembrava desde quando.

A gravidez de Mary Luce, quando chegou ao conhecimento de Alice, já havia chegado a termo. O comparecimento ao enterro do marido de Mary Joanna não foi possível — quando Alice descobriu que o velho barão decidira descansar, as teias de aranha já se ocupavam de amarrar o seu leito eterno. A necessidade de uma nova governanta para a mãe já havia sido suprida. Mary Augusta chegou à França antes mesmo da notícia de sua viagem alcançar as mãos de Alice.

— Obrigada, senhor Milton.

Ele acenou e se retirou.

Alice segurou o envelope grosso e olhou para o marido.

O Esplendor da Primavera: o Retorno da Alta Sociedade a Mayfair e os Preparativos para a Temporada de Bailes, estampava a primeira página.

Ao lado, em letras menores, Tumulto no Parlamento: A Crise do Projeto de Reforma. Era como se o esplendor fosse mais importante que o tumulto. E talvez fosse...

A questão é que, para Alice, ambos não significavam muita coisa.

— Veio das minhas irmãs — ela disse.

O advogado não respondeu, absorvido pelo conteúdo do jornal. Ela poderia jurar que, se levantasse e saísse, ele sequer notaria. Oras, ela acreditava piamente que nem o seu sumiço seria notado pelo advogado!

Seus ombros caíram, desanimados, e ela quebrou a cera cuidadosamente centralizada, passando a ler as cartas.

— Mary Joanna se casará novamente... — sussurrou, antes de continuar lendo. — No início do verão... — Levantou os olhos da carta sorrindo.

— Hm.

Ela engoliu em seco e o sorriso morreu, imediatamente substituído pela tristeza corriqueira.

— Podemos ir?

— Estou partindo para Edimburgo. Ficarei pouco mais de um mês lá, organizando alguns contratos.

O marido finalmente a encarou por cima do jornal. Sua resposta não foi à pergunta feita por ela, mas um comunicado. Talvez o advogado sequer a tivesse ouvido.

A boca de Alice abriu e fechou algumas vezes — a coragem para pedir permissão ao marido para ir sozinha morrendo no fundo da garganta. Sozinha, mesmo sendo senhora de uma pequena propriedade rural com criados, título mais pomposo do que poderoso. Ele sequer a convidara para acompanhá-lo.

Torre medieval estrutura de tópicos

O advogado partiu pouco tempo depois. Levava uma mala pequena de mão além de muitos papéis. Não houve despedida. Nada além de um aceno depois de já acomodado no pequeno tílburi. Nenhuma palavra, nenhum som além do trotar do cavalo.

Alice puxou o ar com força — acostumara-se à solidão, ao silêncio, ao vazio. Uma casa sem vida, longe de ser o lar com que ela havia sonhado.

Estou tão animada! Meu noivo é um médico muitíssimo distinto. Vocês o conheceram quando estiveram aqui. Exceto Mary Alice, é claro, que não nos visita há mais de três anos, comentou Mary Joanna na carta enviada à mãe para dar início ao fio, comunicando o enlace.

Todas ficarão na minha casa, determinou a matriarca na carta que colocou o fio de conversas em movimento.

Vou precisar de um chapéu de penas azuis, pediu Mary Luce à irmã que leria em seguida.

Levarei o meu para você usar, querida. E já encomendei um vestido novo em um belíssimo tom de verde folha!, dissera Mary Augusta.

Era como se ouvisse as vozes das quatro sussurrando suas vidas movimentadas dentro da cabeça, sobrepujando-se aos cascos do animal que conduzia o veículo do marido mundo afora. Uma nuvem de poeira o seguia, criando uma parede marrom entre eles. Ironicamente, qualquer parede seria mais simples de ser ultrapassada do que o silêncio que ecoava pela casa. As palavras não ditas. As ausências sentidas. As perdas lamentadas em isolamento.

Mais de uma vez, Alice se pegou pensando se o marido teria uma amante. Explicaria muitas coisas. O distanciamento entre eles — não apenas durante o dia, mas também à noite —, a falta de dinheiro, as visitas longas a Edimburgo…

Seu coração se apertava nesses momentos. Ela não sabia mais se o amava, essa era a verdade. Mas os dois haviam jurado perante Deus e a família que se respeitariam. Amantes eram uma forma de desrespeito, não?!

Será que ele tinha filhos com a amante? Os filhos que ela não conseguiu dar a ele?

— Minha senhora?! — o mordomo a chamou, trazendo-a de volta dos devaneios.

Alice percebeu que estava chorando e, discretamente, limpou a lágrima que caía. Saudades, ela sabia, era um sentimento angustiante, mas inveja... ah, a inveja corroía por dentro.

— Gostaria de um chá?! — Milton perguntou com excessiva gentileza.

Ela se virou para ele e concordou.

— Estarei…

— Na sala de bordados — ele emendou —, onde passa os dias...

Alice franziu o cenho, digerindo a crítica velada. Dentro de si, um embrulho no estômago.

— Sim.

Torre medieval estrutura de tópicos

As ruas de pedra refletiam o brilho das lamparinas e o vento frio descia das colinas como um aviso — assobios que pareciam chamar o seu nome. Havia uma densa neblina dançando sobre a rua, abraçando os pedestres, e a chuva fina insistente umedecia as roupas e fazia o frio congelar os ossos.

Olhando os transeuntes a partir da janela do sobrado, com as mãos cruzadas às costas, Allisthair pensava no quanto a sua vida tinha passado com pressa.

— Você precisa desculpar o meu pai — Rowena disse com a voz calma. —  Ele está ansioso para se livrar de mim.

— Oras, minha filha merece estabilidade — o laird MacLaren respondeu de imediato. — E vocês são jovens. Tenho certeza de que o clã Murray tem muito a ganhar com essa união. Provavelmente mais do que eu mesmo.

Allisthair não se virou para o laird nem tampouco respondeu... Edimburgo sempre lhe parecera um lugar de decisões — acordos, promessas, dívidas, resoluções. Desde a morte do pai, quase vinte anos antes, nunca sentira tanto o peso das próprias responsabilidades — pelos irmãos, pelas irmãs, pelo seu clã. A cidade era imponente, disciplinada, inglesa demais para o seu gosto… mas, naquela noite, parecia muito com a sua terra — misteriosa, murmurante, lamuriosa.

— Uma cerimônia no verão é o que espero — o laird voltou a falar, sem se importar com o silêncio de Allisthair.

— Papai, deixe-me conversar com o meu noivo por alguns instantes?

MacLaren encarou a filha, depois o futuro genro, e se afastou alguns passos sem deixar a sala. Rowena, então, fez uma leve carícia no braço de Allisthair.

— Diga-me o que está incomodando.

Ele suspirou e desviou o olhar da rua, voltando-se para ela. Rowena MacLaren era uma moça jovem, bonita, sensata — adequada para assumir o papel que lhe cabia. Alistair sabia que aquela união seria benéfica para os Murray.

Ainda assim, estava inquieto... os assobios das colinas o chamavam de volta a Blair — um instinto, um arrepio na nuca, uma pressão difícil de ignorar.

— Nós vamos nos casar, Rowena. Sou um homem de palavra.

Ela sorriu tranquila e acenou.

— No verão — ele prometeu.

Torre medieval estrutura de tópicos

Os dias em Edimburgo pareciam todos iguais e Allisthair quase podia sentir o tédio da rotina. Caminhando ao lado de Rowena pelas ruas estreitas, ouvia um extenso monólogo sobre os preparativos para o casamento, alguns meses depois.

— Você está estranho hoje — Rowena comentou. — Parece especialmente taciturno.

Ele desviou os olhos para ela.

— Preocupado com Blair, só isso.

— A carta de Ian trouxe notícias ruins? Está tudo bem com ele?

Allisthair estreitou os olhos. Rowena e Ian haviam sido próximos há alguns anos e terminaram por se tornar grandes amigos... O laird abandonara o pensamento de que o irmão nutria algum afeto pela herdeira dos MacLaren mas, naquele momento, se pegou pensando se era o caso.

— Allisthair? Está tudo bem em Blair?

Ele acenou, mas a noiva o conhecia há tempo demais para saber quando mentia. Rowena apertou os olhos para ele, certa de que não deveria se meter — ainda — nos assuntos de Blair.

— Sabe, Allisthair, estou feliz por não ser noiva de Fraser. Dizem que ele ronca como um touro e mastiga como um javali.

Allisthair riu sem realmente achar graça, e Rowena ficou relativamente satisfeita por conseguir aliviar um pouco das rugas da testa dele — cultivavam uma amizade antiga, suficientemente longe do romance para ele não se preocupar com o casamento.

— Não quer mesmo esperar os advogados terminarem os contratos para assinarmos?

Ele negou.

— Preciso voltar para Blair. Estou afastado há tempo demais.

Pararam diante da casa dela e Rowena ofereceu a mão — um gesto inglês demais para alguém como ele. Ainda assim, a cortesia poderia ser útil. Ele aceitou, encostou a testa e, depois, os lábios — atitude de respeito na cultura de seu clã.

— Até o verão, Allisthair.

O laird hesitou por um instante, sentindo um calafrio percorrer a espinha.

— Até o verão, Rowena.

Torre medieval estrutura de tópicos

Allisthair Murray entrou novamente em suas terras quando o céu já pesava com a promessa de mais chuva. O caminho de volta de Edimburgo fora longo, silencioso, e a ideia de casamento ainda lhe apertava o peito de um jeito que ele não sabia nomear. Não era arrependimento — mas também não era alívio. Era só cansaço.

Ele pretendia parar no velho caramanchão para descansar o cavalo e talvez fechar os olhos por alguns minutos antes de seguir para o castelo. A estrutura de madeira, coberta por trepadeiras escuras, sempre fora um abrigo discreto na fronteira entre suas terras e as de MacLaren. Um lugar onde ninguém o incomodava.

Mas o lugar não estava vazio...

A silhueta surgiu primeiro: uma figura sentada, imóvel, como se a chuva não a tocasse. O vestido escuro estava colado ao corpo pela água, marcando curvas generosas que a distância não conseguia suavizar. Era a forma sinuosa de uma mulher feita — alguém a quem ele não conhecia. Allisthair puxou as rédeas, instintivamente, e pulou do cavalo. O animal bufou, inquieto, mas não avançou.

A mulher apoiou uma sombrinha no banco ao seu lado e secou o rosto com um lenço. Então, um trovão cortou o céu, iluminando por um instante o caramanchão — e foi nesse instante que ele a viu olhar para os lados e soltar o cabelo do coque. O movimento lento esquentou o seu sangue como fogo. Ela entremeou os dedos nos fios, soltando-os e balançando a cabeça, empinando ainda mais o busto sob o tecido pesado, respirando profundamente, quase como se sentisse alívio.

Allisthair perdeu o ar. Não pela beleza — embora houvesse algo nela que chamava a atenção —, mas por descobrir quem era. Alice Montgomery, a esposa do advogado inglês que arrendara uma pequena propriedade há pouco mais de um ano. A mulher que todos diziam ser discreta, educada, silenciosa... elegante, distinta. A mulher que raramente era vista fora de casa. A mulher que, segundo rumores, carregava a tristeza de velhas lendas.

O que fazia ali, sozinha, tão longe de casa?

Ele contratara o marido dela há cerca de dois meses, com quem vinha tendo cada vez mais contato por conta das questões jurídicas do clã — e, agora, do acordo de casamento —, mas jamais vira a esposa dele tão de perto. E jamais havia parado para pensar que o homem passava meses em Edimburgo sem ela, que jamais a levara ao castelo...

Até aquele momento, o laird jamais havia se preocupado com... ela.

Allisthair permaneceu onde estava por alguns instantes, observando-a atentamente pela primeira vez. Deveria ir embora, deixá-la ali consigo mesma. Mas a inglesa não pertencia àquele lugar e, pela forma como estava desconfortável, pela forma como seus ombros caíram desanimados ao som dos próprios pensamentos, parecia pertencer a lugar nenhum.

Torre medieval estrutura de tópicos


Amazon

Google Books

Apple Books

Kobo



Postagens mais visitadas deste blog

A vida é uma só

   Quando comecei a carreira de escritora, há mais de dez anos, eu imaginei que a qualidade poderia suplantar a minha inabilidade para lidar com a exposição. Não consegue. Vivemos num mundo 24x7, de hiperexposição desmedida. Da própria nudez à nudez do outro, das banalizações aos exageros, dos padrões que ironicamente falam de liberdade às liberdades que ironicamente impõem padrões, as mídias trazem, para pessoas como eu, o choque da própria inadequação. Não me encaixo. Não sei fazer algumas coisas e, mais do que isso, não tenho saúde mental para outras tantas. Cada livro meu traz uma história de superação, nem sempre compreensíveis por aqueles que enxergam o mundo pela lente bêbada das telas. Pequenas superações do ser humano médio, eu diria. Minhas personagens, eles e elas, não lutam contra dragões — ou voam neles — nem tampouco são as protagonistas da salvação do mundo. Pelo contrário. Elas lutam para salvar a si mesmas no caos que as envolve, e se superam a cada dia. As ...

A ilusão de um primeiro amor

  Prólogo Sofia Maria Violeta de Albuquerque era a filha mais velha do duque de Albuquerque, a única gerada do ventre do grande amor da vida do homem , frase que ela tinha orgulho de repetir sempre que lhe perguntavam por que não era nada parecida com a madrasta. Seus irmãos eram bem mais novos, e frutos do casamento seguinte — um arranjo comercial deveras rentável para Pedro Américo de Albuquerque. Por isso, naquele dia, Sofia estava parada com as mãos na cintura no meio dos aposentos de Delfina de Albuquerque — a madrasta — olhando o conde de Valença pendurado numa escada vasculhando o armário de roupas. — Você enlouqueceu, pulga — ele resmungou, com a voz abafada. — E está me arrastando para a lama com essa carreira de crimes! — Ora, João, deixe de ser medroso e procure. Eu sei que tem algo aí. — Claro que tem! Poeira... e um mandado de prisão! Que inferno! Ela arregalou os olhos, bateu palmas e deu alguns pulinhos animados. — Tem mesmo? Eu sabia! Deixe-me ver! — N...